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Dólar caro, juro alto e fiscal ameaçam investimentos – 21/06/2024 – Mercado


A escalada do dólar, a recente interrupção sem corte de juros pelo Banco Central A percepção de que o governo Lula (PT) terá dificuldade em ajustar as contas públicas ameaçar interromper a retomada dos investimentos verificado nos últimos meses.

Após o aumento da taxa de investimentos no primeiro trimestre, principalmente pela importação de máquinas e equipamentos em um ambiente até então de dólar estável, há sinais de perda de ímpeto nesta tendência, segundo sondagens e especialistas da área.

Depois de três trimestres de queda no ano passado na chamada FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo) —que engloba máquinas e equipamentos, construção civil e outros ativos fixos—, o indicador apresentou alta de 2,7% nos primeiros três meses de 2024, na comparação com igual período de 2023. Em relação ao último trimestre do ano passado, o avanço foi de 4,1%.

Dados do Icomex (Indicador de Comércio Exterior) da FGV-Ibre, mostram crescimento de 15,5% no volume importado pela indústria de transformação entre janeiro e maio, em relação ao mesmo período de 2023.

Mas, segundo Lia Vals, pesquisadora associada da FGV-Ibre e responsável pelo Icomex, embora esse resultado sinalize uma perspectiva favorável para os investimentos, “o cenário atual de alta volatilidade cambial não favorece novos planos, podendo ameaçar a manutenção dessa tendência”.

“Tivemos um começo de ano otimista, mas isso se reverteu, com muita instabilidade e a alta do dólar”, diz Vals. Segundo ela, como a base de comparação de 2023 para investimentos é baixa, é possível que haja um resultado melhor neste ano, mas nada significativo.

Vals afirma que mesmo que haja novos investimentos em implementos no agronegócioisso não será suficiente para ampliar a taxa geral, pelo fato do setor ter participação limitada na economia como um todo.

“O que importa mesmo é o investimento das indústrias, e será difícil sustentá-lo com o dólar caro e sem muita visibilidade sobre o que acontecerá nas contas públicas”, afirma. Ela ressalta que o setor estatal também não indicou, por enquanto, grandes transportes na infraestrutura —que tenderiam a atrair outros setores.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento, a FBCF teve alta média de 5,9% até abril (sobre igual período em 2023), com destaque para o aumento de 11,9% na compra de máquinas e equipamentos para indústrias e empresas. A importação desses itens saltou 18,8% no período, e a compra de bens nacionais, 8,4%.

Para Leonardo Mello de Carvalho, técnico de Planejamento e Pesquisas do Ipea, a “parte boa” é que a demanda doméstica puxa o consumo de bens seguros, os investimentos e as ações. “Mas existem fatores que podem variar nos investimentos, como a crise no Rio Grande do Sul, a alta do dólar e a Selic”, agora estacionada em 10,5%

Na terça (18), o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), afirmou que houve redução no ritmo de consultas para financiamentos da instituição em maio. Segundo ele, a perda de fôlego pode estar relacionada a “ruídos” políticos e fiscais.

“Tivemos um crescimento muito grande nos primeiros quatro meses em consultas e de mais de 90% das aprovações no período. Mas observamos redução de consultas em maio, quando o ruído cresceu muito”, afirmou. “Tem alguma coisa que gerou uma expectativa, uma reversão de otimismo que víamos no fim do ano passado e no início deste ano. Vai passar, mas teve.”

Em 29 de dezembro de 2023, o dólar usado nas importações de máquinas e equipamentos estava cotado a R$ 4,86. De lá para cá, subiu cerca de 12%, encarecendo o custo dessas aquisições pela indústria de transformação e de implementos agrícolas importados.

No relatório da consultoria BRGC, o economista Lívio Ribeiro estimou que a maior parte da valorização do dólar frente ao real deve-se a fatores domésticos, como a política econômica do governo Lula e a falta de perspectiva para um ajuste fiscal.

“Uma opinião pelos fundamentos sugere que as questões locais tiveram importância cada vez maior, sendo, inclusive, o fator determinante nas últimas semanas”, afirma Ribeiro. “Isso explica quase 90% da elevação da taxa de câmbio [a partir do patamar de US$ 4,86 do fim de 2023].”

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a melhoria de vários indicadores econômicos no primeiro trimestre deste ano —inclusive nos investimentos— “não deve ser considerada como tendência”.

“Entre janeiro e março, infelizmente injeção de recursos na economia com o pagamento de precatóriosperspectiva de queda nos juros [que agora se frustra] e aumento do crédito”, diz. Por conta desses fatores, o setor de serviços avançou 1,4%, e o de comércio varejista, 3%, ante o quarto trimestre de 2023. “Mas são pontos que não vão se repetir.”

Vale afirma que os investimentos responderam antecipadamente às tendências econômicas de longo prazo, e que elas se deterioraram. Ele projeta um crescimento de 2,2% no PIB deste ano, mas diz que uma expectativa de alta de 2,5% para os investimentos pode ser revista para baixo.

A indústria de transformação, um dos principais destinos dessas máquinas e equipamentos, por exemplo, recuou 0,5% em abril na comparação com março, interrompendo dois meses de resultados positivos.

Segundo Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro da FGV-Ibre, a indústria também importa boa parte dos insumos para produzir. Com o dólar mais caro, a tendência será de redução da atividade. Ela ressalta que o fim do ciclo de corte nos juros também terá impacto sobre o crédito ao consumo e à compra de máquinas e equipamentos.

“Com os juros no patamar atual, o retorno dos investimentos fica muito complicado. Por que as empresas investiam?”, questiona. Com a Selic agora estacionada em 10,5% ao ano, o juro real atual (descontada a inflação) proporciona rendimento anual de quase 7% um capital que poderia ser empregado na produção.

Apesar da melhoria recente, a taxa de investimentos do país em relação ao PIB fechou o primeiro trimestre em 16,9%, segundo o IBGE. O nível é considerado insuficiente até para compensar a depreciação e o desgaste de máquinas e equipamentos, especialmente na indústria, e garantir um crescimento sustentável, sem pressão inflacionária pela via do consumo.



FOLHA DE SÃO PAULO

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